ARTIGO

Em um mundo de mudanças, a confiança cooperativa precisa ser vivida

A partir de sua pesquisa sobre o ethos cooperativo, Cleber Zequetto analisa como narrativas, educação e participação transformam princípios em experiências de confiança e pertencimento.

Retrato de Cleber Zequetto
Cleber Zequetto. Reflexões sobre cultura e cooperativismo. Acervo pessoal.

Atualizado em

O Dia Internacional das Cooperativas de Crédito, celebrado em 15 de outubro de 2026, convida a olhar para o que sustenta a confiança nas relações financeiras. Em um ambiente de mudanças rápidas e excesso de informação, a estabilidade também depende de vínculos, compreensão e coerência nas decisões. A pergunta que proponho é direta: o que uma pessoa precisa viver para reconhecer que faz parte de uma cooperativa?

A campanha internacional da WOCCU e da Worldwide Foundation for Credit Unions apresenta, em 2026, as finanças cooperativas como um sinal de estabilidade em meio ao ruído. A adaptação divulgada pelo SomosCoop aproxima essa mensagem do contexto brasileiro. Para além da campanha, interessa compreender como essa promessa se torna reconhecível nas relações cotidianas.

Ethos: o que permanece quando o discurso termina

Na tese O ethos do cooperativismo em diálogos e afetos, desenvolvida na Universidade Federal de Mato Grosso, investiguei o cooperativismo como experiência cultural. O ethos diz respeito aos valores, crenças e costumes compartilhados; não se limita à declaração de princípios. Ele se comunica por símbolos, mas também pelos modos de conviver, decidir e interpretar o mundo.

A pesquisa articulou cartografia e semiótica da cultura para acompanhar diálogos, afetos e produções coletivas com estudantes de uma instituição de formação em cooperativismo, em Mato Grosso. Essa abordagem permite compreender sentidos construídos nas experiências. A leitura que apresento aqui desdobra essa base para pensar a gestão; não constitui uma medição nacional da confiança nas cooperativas.

Da promessa à experiência

Uma marca pode anunciar proximidade e, ainda assim, produzir distância na forma de atender. Pode defender participação e oferecer poucas condições para a discordância. É nesses encontros, especialmente nas dificuldades, que as pessoas interpretam o significado concreto de pertencer. O princípio ganha força quando encontra uma prática que o confirma.

Pense em uma orientação financeira: a conversa terminou porque uma solução foi oferecida ou porque o associado compreendeu os compromissos envolvidos? Em uma decisão coletiva: houve apenas comunicação do resultado ou espaço para entender os critérios? São situações em que eficiência e cuidado precisam trabalhar juntos. A confiança depende também da possibilidade de perguntar, compreender e receber uma resposta coerente.

A confiança cooperativa começa quando a promessa institucional encontra confirmação na experiência de quem participa.
Síntese editorial de Cleber Zequetto

Narrativas: ouvir como as pessoas explicam o que vivem

Na seção dedicada ao manejo de narrativas cooperativas, a tese mostra como histórias compartilhadas contribuem para a construção de identidade e pertencimento. Não se trata apenas de recolher depoimentos positivos. O relato de uma frustração também informa: revela expectativas, tensões e sentidos que um indicador isolado pode não tornar visíveis.

Nos diálogos analisados, aparecem valorização do trabalho em conjunto, empatia, conhecimento e preocupação com a vida coletiva. Também há uma voz crítica, que reconhece a necessidade de melhorar a prática. Essa coexistência é valiosa: uma cultura viva pode sustentar compromisso e questionamento ao mesmo tempo. Escutar apenas o elogio reduz a capacidade de aprender.

Para a liderança, proponho uma aplicação: ouvir o que as pessoas dizem, acompanhar o que conseguem fazer e compreender o que sentem diante das experiências oferecidas. Quando esses planos se distanciam, há uma questão de cultura a investigar. A escuta ganha consequência quando retorna às pessoas como decisão, explicação ou mudança de prática.

Escutar uma narrativa é compreender como a organização é vivida por quem faz parte dela.
Síntese editorial de Cleber Zequetto

Educação para participar e decidir

Educação cooperativa e educação financeira se encontram na ampliação da capacidade de escolha. Compreender custos, riscos e compromissos ajuda a decidir sobre a própria vida; compreender o modelo cooperativo ajuda a situar essa decisão em uma construção coletiva. Informação disponível não garante, por si só, compreensão nem participação.

Isso muda o papel de quem educa. Em vez de presumir que o associado conhece a diferença entre ser cliente e ser cooperado, é preciso abrir espaço para que ele formule perguntas, conecte o modelo à sua realidade e reconheça direitos e responsabilidades. A coincidência com o Dia do Professor, neste ano, reforça essa dimensão: toda relação pode ensinar algo sobre o que a organização valoriza.

Pertencer é poder contribuir, inclusive quando se discorda

O pertencimento não se esgota na satisfação de receber um serviço. Ele se aprofunda quando a pessoa reconhece que sua contribuição tem lugar na construção coletiva. Isso exige canais acessíveis, linguagem compreensível e condições para participar, inclusive quando as opiniões não coincidem com as da liderança.

Na tese, as narrativas são tratadas como construções dinâmicas, que podem se ampliar, mudar e ser contestadas. Essa ideia tem uma consequência para a gestão: a identidade cooperativa precisa ser continuamente compreendida e elaborada por quem chega. Ela não se transmite automaticamente pelo tempo de existência da instituição ou pelo uso de seus símbolos.

Pertencimento se fortalece quando a pessoa reconhece que sua presença pode se tornar contribuição.
Síntese editorial de Cleber Zequetto

Três perguntas para transformar princípios em prática

Primeira: que experiência confirma, hoje, o princípio que afirmamos defender? Segunda: quem ainda encontra barreiras para compreender e participar? Terceira: o que mudou depois que ouvimos as pessoas? Essas perguntas não substituem indicadores, controles ou resultados financeiros. Elas acrescentam uma leitura sobre a qualidade das relações que sustenta a continuidade do empreendimento.

Um caminho é observar episódios concretos: o atendimento de uma dúvida, a condução de uma reunião, a resposta a uma crítica ou a explicação de uma decisão difícil. Examinar essas situações com as equipes ajuda a reconhecer quais comportamentos aproximam a experiência do propósito e quais precisam ser revistos. A cultura se torna trabalhável quando sai da abstração.

Uma identidade capaz de orientar o futuro

A experiência na WOCCU 2025, em Estocolmo, ampliou meu interesse por essas questões em diferentes contextos. Inovar e crescer pedem eficiência, governança e capacidade de adaptação. A contribuição da leitura cultural é perguntar a serviço de que relações e de quais possibilidades esse desenvolvimento está sendo construído.

Neste DICC, o convite é olhar para as práticas que tornam a confiança possível. Educação, participação e cuidado ganham consistência quando ajudam as pessoas a compreender seu lugar e a agir sobre a realidade compartilhada. O ethos cooperativo se fortalece quando os princípios passam a orientar escolhas reconhecíveis na vida de quem participa.

A base desta reflexão

Esta leitura parte de O ethos do cooperativismo em diálogos e afetos, de Antonio Cleber Zequetto, PPGECCO/UFMT, exemplar datado de 2023. A seção 5.2.1 relaciona as narrativas à construção de identidade e pertencimento (pp. 135–136) e discute a diversidade e a transformação dos sentidos produzidos nas experiências (pp. 139–141). As aplicações à gestão e os destaques identificados como sínteses editoriais foram elaborados para este artigo.

“Essas narrativas não apenas comunicam informações e experiências, mas também desempenham um papel na criação de identidade e sentido de pertencimento entre os cooperativistas”
Zequetto, 2023, p. 135 · trecho da tese; paginação impressa.

Referências

EDUCAÇÃO, CULTURA E COOPERAÇÃO

Leve essa conversa para sua organização.

Fale com Cleber

CONTINUE A LEITURA

Outras ideias para explorar.

Ver todas as notícias e artigos →

Conteúdos relacionados

Últimas notícias e artigos

CONVERSAS QUE CONTINUAM

Sua experiência amplia esta conversa.

O que este tema desperta no seu trabalho ou na sua vida? Compartilhe uma reflexão, uma pergunta ou uma experiência.

Comentários passam por aprovação. Não inclua dados pessoais de terceiros. A curtida usa um identificador anônimo neste navegador.

Comentários